Na época que eu trabalhava na UTI neonatal tínhamos vários desafios e momentos difíceis, mas nada comparado a perda de um bebê. Para a equipe era um momento triste e uma derrota, nosso sentimento era que infelizmente não conseguimos salvar uma vida, porém para os pais era muito pior, muito mais intenso, independente da idade gestacional, independente se nasceu vivo e faleceu depois ou se nasceu morto, é uma morte, é uma perda, é um luto!

A morte de um filho vai na contra mão do que é esperado da vida e a perda perinatal, ou seja, próximo ao nascimento é um paradoxo, pois na gestação e no nascimento, espera-se o começo da vida, alegria, sonhos e expectativas de um futuro. Esse luto, muitas vezes é difícil de ser elaborado pelos pais, pois o reconhecimento social, que faz parte do luto e ajuda o sujeito a elaborar o sofrimento, em casos de fetos e bebês é pouco reconhecido. A sociedade opta pela negação e racionalização usando frases como: “você é jovem, terá outros bebês”, “ainda bem que foi agora no começo”, “foi melhor assim, você verá”.

Frases como essas só confirmam o golpe que as mulheres sentem na auto-estima, o sentimento de impotência e culpa pelo que aconteceu. Do ponto de vista dos pais não existe um idade menos traumática para a morte do filho, não importa se ele tinha 6 semanas de gestação ou 3 horas de vida, foi seu filho de morreu!

De acordo com a psicóloga Vera Iaconelli “o luto perinatal merece uma atenção especial, visto que é uma perda não plenamente reconhecida, que não é abertamente apresentada e muito menos socialmente validada…” nos falta a empatia com as mortes gestacionais e pós natais, nos falta um olhar carinhoso e afetuoso a dor dessa família. Que possamos abraçá-los e acolhemos como merecem!

 

Fonte: Muza JC, Sousa EN, Arrais A da R, Iaconelli V. quando a morte visita a maternidade: atenção psicológica durante a perda perinatal. Psicol.teor.prat. 2013; 15(3). http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872013000300003

 

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